TEMPOS FELIZES

Por Alcindo Garcia*

Já troquei de celular não sei quantas vezes. Ha cada três meses surge um mais avançado. Lojas aceitam o velho como parte do pagamento e ainda você tem que desembolsar quase R$ 1 mil para a troca. Não sou contra essa tecnologia que em parte, sabendo usá-la, facilitou muito a Comunicação. O problema é o vício. Um dia destes na sala de espera do consultório do dentista tinha umas quatro pessoas. Cada uma com o bendito nas mãos. Ninguém conversa mais com ninguém. Um monte de revistas na mesinha, mas intocáveis. Ninguém mais lê. A contracultura do celular está substituindo a leitura e com isso a literatura perde leitores.
Pior que essa tecnologia não respeita faixas etárias. Crianças dormem e acordam com o celular ligado e a autoridade paterna está indo para o espaço. Dos meus sonhos de criança revi como éramos felizes sem o celular. Nascemos livres para correr, caçar, pescar, soltar pipas, etc. Tínhamos licença dos pais para ficar na rua, brincando sem correr perigo, porque na época não havia carros com 200 cavalos no motor e um burro no volante. Os carros eram com menor potência, e os quadrúpedes, besta, asno, burro, seja o que for, não tinham carteira de habilitação.
Não havia a tecnologia do computador e não éramos escravizados pela máquina. Não havia crianças sedentárias nem obesas. Não se falava em crianças neuróticas. A atividade começava cedo e com ela as estripulias que formavam nossa musculatura, nervos, vasos e fazia com que a cabeça fosse sempre boa. A psicoterapia em nossa época não dava muito lucro. Nós, crianças, não precisávamos de psicólogos, porque os pais e a vida já nos ensinavam comportamentos, regras e limites.
Como a infância é a parte mais linda da vida, nossos pais sabiam que ela passava depressa e, portanto, deixavam a gente vivê-la. Eles gostavam de nos ver como crianças. Meninas com vestidos floridos com fitas e meninos com calças curtas, suspensórios do mesmo pano e camisas em tom xadrez um tanto quanto roceiras. Nossos pais não interrompiam o ciclo de uma fase em que as meninas trazem no rosto o rosa natural mais encantador do mundo. Tempo em que rebocar aquele rostinho inocente era uma heresia.


*Alcindo Garcia é Jornalista - e-mail: alcindogarcia@uol.com.br