O JAPONÊS MALA

Por Alcindo Garcia*

Aconteceu no início da minha carreira, quando era repórter da Rádio Difusora de Assis. Numa manhã de inverno rigoroso eu e o operador de som, o Teco, pegamos um jeep e fomos fazer uma reportagem adiante de Maracaí uns 10 quilômetros. Uma geada havia queimado as plantações e nós fomos lá conferir os prejuízos e ouvir os agricultores.

Surgiu um japonês e pediu carona. Ele trazia uma mala enorme e estava a caminho de Maracaí. Como o jeep estava cheio de toda aquela parafernália da rádio, colocamos a mala dele no bagageiro, na capota do velho jeep Toyota. Demos a partida e saímos aos solavancos por uma estrada de terra. A viagem toda o japonês indagava por meio do seu complicado sotaque "Se Maracaí pára?" A gente ia confirmando que parava em Maracaí, para ele descer. A cada solavanco do jeep, de novo o japonês com a pergunta "Se Maracaí pára?" Rodamos alguns quilômetros e novamente o japonês: "Se Maracaí pára"?...Paciência tem limite. O operador de som, que guiava o jeep, parou no acostamento e olhou com um misto de impaciência e raiva para a cara do japonês e respondeu: "Pára em Maracaí, a gente pára em Maracaí, combinado?" .

Foi aí que o pobre japonês, com a cara mais desolada do mundo, explicou: "Agora não precisa mais, mara já caiu". Ele se referia a sua mala que pusemos no bagageiro da capota do jeep que caíra na estrada. Voltamos pelo caminho e felizmente encontramos, intacta, a empoeirada mala do japonês .

O episódio vem confirmar que para ser jornalista não basta dominar bem o português. Precisa ter noções de sânscrito, javanês, afegão e russo. Além de japonês que também ajuda.

*Alcindo Garcia é jornalista