Canta prá ela, Raul, canta!

Por Daniel Pereira*

“Aprendi que um homem só tem o direito de olhar o outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se”

Caí na cama com o aforismo de Gabriel García Márquez latejando na cabeça, já alagada de chuva e cerveja com amigos em um boteco próximo ao falecido parque antártica. Para roraimenses: era assim que se chamava o estádio de futebol do Palmeiras, na zona oeste de Sampa. Hoje, o ‘Porcão” é uma bela arena de shows.

Nosso destino era o Bar do Alemão, o caricato point que reúne boêmios de todos os naipes da noite paulistana. O bar famoso estava em reforma. Chovia de baciada e, por isso, decidimos nos aboletar no vizinho, este sim, um boteco, com suspeitas mesinhas na calçada e todas as digitais de espelunca. Uma concha marítima, diria Nelson Rodrigues. O irreverente cronista, se ali estivesse, certamente salivaria a expectativa do iminente flagrante para enriquecer seu repertório.

Pois, foi evocando a figura do “sobrenatural de Almeida”, controvertido personagem do dramaturgo carioca, que nos vimos ao seu lado quando ela surgiu, esvoaçante qual borboleta órfã e vacilante, quem sabe ainda se recuperando da difícil jornada do casulo para a luz.

O enredo seria inusitado se o cenário não fosse a Paulicéia desvairada. Vestia azul, moldando a silhueta morena com generoso decote. Cerca de 1,70 m, mais para pluz size. Cambaleou entre as mesas e compôs um discurso engrolado, típico de quem ultrapassou o limite do escracho moral. Súbito, desabou, emporcalhando-se na enxurrada da calçada. Ficou ali, inerte.

Ninguém sabia quem era a mariposa. Moradora de rua? Não. O dono do boteco arriscou: é de família rica, foi deserdada pelo pai. Outro chutou: seria mulher do traficante da região. Não, ninguém sabia. Provavelmente nem ela mesma. E quem também saberia mensurar a dor que ela carregava? Ou, como cantou Renato Russo: o tamanho do desejo de não sentir dor?

De repente, num passe mágico, ela saiu da horizontal, sentou-se com as pernas em V, ajeitou a calcinha branca, deu uma geral no indistinto público, recolocou os peitões dentro da casinha, ergueu a cabeça, meneou a cabeleira negra espargindo água para os lados, levantou-se e, segurando-se no vácuo, saiu bamboleante sobre os saltos de seus sapatos brancos. Incrível!

Agora era uma borboleta noturna. Ninguém a olhava de cima para baixo. Por comiseração, falta de coragem ou por vergonha, sabe-se lá! Certo, mesmo, é que ninguém ali tinha esse direito. Na mesa ao lado, enquanto ela se esgueirava na escuridão, Raulzito – travestido de boêmio paulistano -, dedilhava seu violão e a distinta freguesia lhe pedia: Canta prá ela, Raul, canta! E Raul cantou, a tempo de ver a misteriosa mulher acenar do outro lado da rua:
Eu perdi o meu medo/O meu medo, o meu medo da chuva/Pois a chuva voltando pra terra/ traz coisas do ar...


*Daniel Pereira é jornalista e escritor. 11 – 97660-4588
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