DIA DA SAUDADE

Por Alcindo Garcia*

Numa quinta-feira, 30 de janeiro comemorou-se o”Dia da Saudade”. Todos nós temos uma história de vida. Ela é cheia de alegrias, de tristezas, de fracassos e de sucessos. Estão marcadas em nossas raízes que nos levam a algum lugar do passado. Pessoalmente tenho uma história, mas não tenho o dom criador dos poetas e dos músicos. Se o tivesse poderia pincelar parte desta história, inexpressiva, porém, carregada de saudades. Adoro Disparada, de Vandré, porque fala um pouco do meu ser. “Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar, eu venho lá do sertão e posso não te agradar...”. A vida é narração, e é nela que o mistério de Deus se traduz por meio de personagens reais, fatos concretos, cheiros e sabores.
Também vim do sertão, ouvi galos cantando na madrugada, tomei garapa da prensa do engenho de cana do meu pai. Ainda garoto, pisei a terra vermelha, “vermelha do meu sertão...”, como canta o violeiro. Gostava de sentir o cheiro da chuva molhando a plantação e observava curioso um monjolo d’água socando o pilão. Meus olhos de criança eram atentos observadores dos dedos ágeis do violeiro, cujos toques me encantavam com música. “Nesta viola eu canto e gemo de verdade. Cada corda representa uma saudade...”. Sedento de saudades de um tempo que não volta mais, resta relembrar capítulos desta história, já que nada é mais importante no momento da sede do que um copo d’água. O resto é acessório.
Descobri que a felicidade não está nas grandes coisas nem no sucesso. A felicidade está na forma de se levar a vida com simplicidade, sorrindo dos tropeços e aprendendo com os desacertos. Ao trocar o paraíso da roça pela cidade grande, contemplo hoje do alto da minha janela, num 15º andar, o sol se pondo, porém, sem o aquele mesmo colorido do cenário que marcou minha infância na Água da Aldeia.
Passei por gabinetes. Troquei os dois dedos de prosa caipira pela fala dos importantes. Entrevistei políticos e produzi matérias. Falei com autoridades, mas tudo não passou de coisas pequenas demais. Tenho saudades mesmo é dos “dois dedos de prosa” do caipira, sinto falta da sua sinceridade e dos seus causos, do cheiro da vegetação e da cantoria dos galos ao amanhecer. Tudo isso para dizer que só as pessoas simples foram rastros de Deus na minha vida.

*Alcindo Garcia é Jornalista - e-mail: alcindogarcia@uol.com.br