DIÁRIO DE UM CADÁVER

Por Daniel Pereira *


A estrovenga abaixo, que chamo de conto e as (o)s convido a ler, faz parte do livro que venho escrevendo há algum tempo e que pretendo concluir quando o INSS corrigir a sacanagem que faz com o teto de minha aposentadoria – e, com certeza, de uma porrada de outros anciãos – atualizando-a pelos valores atuais. Mas, pelo jeito, se depender disso, o livro vai ficar pendurado num arquivo qualquer do computador. De toda forma, apreciarei se tiverem saco para passar os olhos nessas porandubas, especialmente se puderem fazer comentários, sugestões e críticas.

Meu nome é Ana Bolena. Aqui, onde agora me encontro, está tudo muito breu, fica difícil traçar o meu perfil e muito menos ver o que está em volta. Mas, quem estudou um pouquinho de História sabe quem sou. Ficaria muito zangada se não soubessem. Afinal, estou na imprensa todos os dias, mesmo depois de 500 anos da minha morte. Vocês não leem os jornais e sites, não veem televisão, sobre os escândalos da corte? Well, qualquer coisa que se saiba sobre o que acontece em Westminter e arredores tem o meu dedo, ou, a minha intervenção.

Mas, o que eu quero denunciar – chamem as televisões, jornais, correspondentes internacionais e o raio que o parta – é um barato muito louco. Diziam que eu era uma vagaba, meretriz, uma puta sem dignidade. Vão se ferrar. Agora vou contar toda a verdade, em exclusivíssima primeira mão para esse repórter de saco roxo que se dispôs a entrevistar uma alma penada que nem eu. Do lugar onde estou não tem volta. Os canalhas, e especialmente aquele filho da puta do carrasco francês (que abusou de mim na cadeia), não me deram sequer a chance de pedir perdão. O meu ex-marido, Henrique VIII, já pagou pela cagada que fez quando me mandou para a guilhotina. Em outra ocasião conto tudo isso em detalhes.

Nesse momento, o que quero dizer é que fiz uma regressão e cá me vejo jogada às traças, cabeça de um lado, corpo de outro, como se minha participação na história da monarquia inglesa fosse a de uma barata, que pode ser pisada e morta ao primeiro susto de qualquer dama da corte. Já morri mesmo, posso falar à vontade, sem qualquer sentimento de culpa. Trai o Henrique. E daí? Todo mundo traía ele. E ele traia todo mundo. Grandissíssimo bastardo. Queria comer, e comia, todas as cortesãs. Vocês já viram esse filme. Primeiro ele ferrou minha irmã, Maria. A bobinha se deixou seduzir pelas promessas de que seria rainha no lugar da Catarina de Aragão. Essa também era uma idiota. Aí, a babaca aqui se apaixonou pelo garanhão. De fato, o cara era um tremendo copulador. Coisa comum no reino. Todas as meninas, obrigadas ou não, queriam dar pro rei, ou pro f ilho, pro sucessor, pro chefe da guarda, pro cavalariço-mor...uma putaria sem fim, herança dos bacanais do Império romano.

Sorry! Estou me alongando e o tempo está correndo aqui na penumbra em que me enfiaram. Tento acoplar minha cabeça ao corpo. Isso é complicado, na medida em que os comandos motores já não se pertencem. Os caras me guilhotinaram e nem tiveram o trabalho de juntar as minhas partes em um só lugar. É assim que me encontro agora. Sabem o que mais me revolta? Os canalhas do rei sequer me deram uma sepultura digna de rainha. Fiquei passada com tal indiferença. Jogaram minhas partes num baú, como se fossem comida de cães. Depois, me atiraram numa sepultura anônima. Até hoje fico indignada com esse tratamento. Mas, deixa prá lá. O tempo vai ajudando a gente a entender esses percalços. Prefiro transferir um pouco da história que, certamente, não foi contada como deveria ser.

Enquanto continuo esperando que meus restos mortais sejam recolhidos e levados para o cemitério sagrado dos herdeiros da corte, quero desmentir algumas bobagens que têm sido ditas ao longo dos séculos. A principal delas, sem dúvida, é de que o meu casamento com Henrique tenha precipitado o cisma com a igreja católica. Nego, e prefiro ser decapitada de novo a apoiar tal tese. Vocês sabem, a história vai modificando os testemunhos. É como naquele ditado popular de que quem conta um conto aumenta um ponto.

Por outro lado, não se pode ignorar que a igreja de Roma tenha se aproveitado das polêmicas vigentes à época nos redutos da realeza. Sinceramente, eu era só uma cortesã, dama de companhia da mulher do rei, a herdeira da Espanha, Catarina de Aragão. Acontece que o rei não podia ver uma ovelhinha nova e, com o poder que tinha, tratava logo de traçar a coitadinha. Vejo agora, dois dias depois de terem cortado minha cabeça, que eu poderia ter agido de forma mais inteligente. O duro é que o mau cheiro que exala aqui nesse buraco dificulta qualquer tipo de raciocínio mais claro.

Alguém já lhes disse qual é a sensação de morrer na guilhotina? Tento, agora no terceiro dia esperando que os urubus venham buscar as duas partes do meu corpo, entender por que fizeram tanta malvadeza com uma mulher bonita e ladina como eu. Sabem o que mais dói? O Rico (era assim que eu o chamava) estava casado há 23 anos com a espanholinha. Perguntei prá ele, quando começou a me assediar: “Escuta, cara, você não está satisfeito com a Catarina nem com a tua amante, minha irmã Maria. O que é que você viu em mim?. Sabem o que o canalha respondeu? I wanna fuck you! Simple as that!”


* O autor é jornalista em São Paulo, onde desempenha funções de Assessor de Imprensa do Memorial da América Latina e também de diretor de Comunicação da União Brasileira de Escritores.