Neca Leiteiro

Por Dagoberto Nogueira*

Um senhor respeitável trabalhava junto com seus empregados cortando lenha de eucaliptos em sítios nos arredores de Assis nos anos 1970. Era uma sexta-feira qualquer onde as mãos calejadas dos trabalhadores arrastavam varas e postes enormes além de muita lenha para as carrocerias dos caminhões. O dia de trabalho acabaria mais cedo. Naquele lugar, toda a madeira disponível já tinha sido cortada e carregada. O senhor e seus empregados embarcaram no velho caminhão e rumaram para Assis. Sexta-feira também é dia de acerto e a expectativa e euforia estava no ar. Os trabalhadores vieram rindo, cantando, contado piadas depois de mais um dia árduo de lenhador. Descarregado o eucalipto e acerto feito com os empregados, aquele senhor parou uns minutos para descansar e planejar os próximos dias. Foi neste raros momentos de descanso que apareceu um rapaz trazendo uma vaca amarrada numa velha corda. De imediato foi oferecendo o animal por um preço bem abaixo do mercado da época. Sem muita pechincha o negocio foi fechado. O animal, imediatamente foi levado para o matadouro, pois aquele senhor respeitável, que um dia fora leiteiro - que originou o carinhoso apelido - também possuía um pequeno açougue gerenciado pelos filhos.

Na segunda-feira, quando se preparava para mais um dia de trabalho, recebeu a visita de um policial trazendo uma intimação para comparecer na delegacia com máxima urgência. Ainda trajando as vestes de trabalhador braçal, lá foi ele em seu velho caminhão, até o distrito policial que na época ficava ao lado da cadeia publica, hoje desativada. Ao chegar na delegacia foi logo ouvindo de um jovem e entusiasta delegado que a vaca negociada pertencia a um sitiante e que fora furtada. O delegado continuou dizendo que a pessoa que tinha vendido a vaca era muito conhecida nos meios policiais, com várias passagens por roubo e dezenas de prisões por furto de animais em toda região. O senhor respeitável olhou firme para o delegado, coçou uma ferida na testa feita por uma lasca de lenha, ajeitou os pés na sandália e respondeu com muita calma e serenidade: " Doutor; se o senhor tivesse cortado a orelha dele, na primeira vez que ele foi preso, eu saberia que ele era ladrão" . Assim dizendo, despediu-se saiu da delegacia e seguiu viagem para o trabalho. O jovem delegado ficou boquiaberto com a ousadia daquele senhor mas, não se sabe porque, não deu prosseguimento ao inquérito policial. Mais tarde ficou-se sabendo que aquele  respeitável senhor ressarciu a vitima do furto. Este senhor era Manoel Gonçalves Duarte, conhecido apenas por "Neca Leiteiro", e o jovem entusiasta delegado, hoje aposentado, sempre lembra deste fato.

*Dagoberto Nogueira é produtor e editor do www.umdoistres.com.br