Idade avençada, peso e prêmio

Por Joao Baptista Herkenhoff*

Sob o aspecto físico, a velhice é peso porque traz restrições e, em alguns casos, até sofrimento. Sob o ângulo espiritual, a idade provecta é prêmio para ser celebrado com alegria.
A maior riqueza da idade avançada é a experiência de vida, que não deve ser guardada mas que, pelo contrário, deve ser partilhada.
No mundo capitalista, que se assenta na competição, pode ocorrer que, numa empresa ou no serviço público, as artimanhas ou macetes sejam mantidos em segredo, por temor de serem utilizados pelos competidores contra os que detêm o conhecimento de certas estratégicas.
Na opinião do filósofo inglês Alfred Whitehead, a experiência não é para guardar, É preciso que alguma coisa façamos com ela.
Outro ângulo desta mesma questão de envelhecer. Cabe refletir se a aposentadoria deve implicar encerramento de atividades ou apenas redução de compromissos exigentes.
São múltiplas as novas experiências possíveis. Que cada um encontre seu caminho. Que a sociedade não cometa o desatino de desprezar a sabedoria dos mais velhos.
Se o aposentado sentir-se feliz usufruindo da aposentadoria simplesmente, essa atitude não merece qualquer reparo. Ele fez jus ao que se chama ócio com dignidade.
O pedagogo tcheco Comenius ensina:
“No ócio, paramos para pensar, para correr no labirinto do autoconhecimento, para investigar nossa condição de seres humanos. Não se trata de passar o tempo, mas de penetrar no tempo, em busca do essencial. Não é tempo perdido, é tempo sagrado e consagrado.”
Seguindo o conselho de Whitehead, tenho andado por aí a semear ideias. Tenho falado em congressos e também ministrado seminários de curta duração.
Os jovens apreciam muito as palestras porque valorizam a experiência dos que ocupam a carruagem da frente, na caminhada da vida.
Os convites têm sido feitos por universidades, faculdades, OABs, igrejas de diversas confissões. Compareci com a palavra em todos os Estados de nossa Federação e em todos os Municípios do Espírito Santo. No que se refere aos Estados só faltava o Amapá para fechar esta proeza. Digo sem modéstia que é uma proeza porque não tenho benditos trinta anos.
O mais relevante não é o valor real das ideias apresentadas, mas sim o fato de que a semeadura tem sido feita com alegria, espírito reto e boa vontade.
Transmitir conhecimentos é vida. Os professores, no Brasil, são mal remunerados, o que é lamentável. A recompensa do trabalho professoral é o reconhecimento desse trabalho pelos estudantes, famílias e pessoas que sabem que abrir uma escola é fechar uma prisão, como disse Victor Hugo, que não foi apenas um escritor, como todos sabem, mas também um ativista dos direitos humanos.


*João Baptista Herkenhoff é magistrado aposentado (ES) e escritor. E-mail: jbpherkenhoff@gmail.com