PARA QUEM VIVEU OS ANOS DOURADOS
 

Por Alcindo Garcia*

É deselegante perguntar a idade de uma mulher. Ela tem todo o direito de mentir. Terceira Idade, Melhor Idade ou Idade de Ouro são eufemismos usados pela geriatria para iludir quem já passou dos “seis ponto zero” ou pra mais. São definições modernas para remoçar o espírito de quem já cruzou a linha de chegada. A juventude está no espírito e não na certidão de nascimento, amarelada pelo tempo. Só que nessa fase, quem não gosta de revelar a idade tem que tomar algumas cautelas. Caso contrário vão pensar que você é do tempo em que o Merthiolate ardia e nossa mãe curava nossos esfolados com mercúrio-cromo.
Jamais diga que dançou (de rosto coladinho) ao som da Orquestra de Ray Connif, tocando “Love is many splendore thing”. Essa música estava na parada de sucessos nos anos sessenta. Não conte que chorou ao assistir Casablanca, cujo fundo musical era “Is Time Goes By”. Esse filme foi lançado na década de 40. Se for para falar da qualidade do piso da sua casa, nunca mencione a Cera Parquetina. O produto é de 1921. Quando a conversa girar em torno de perfumes, todo cuidado é pouco. Os importados “Fleur de Rocaille”, e “Chanel 5”, ambos são da década de cinqüenta. Se assumir que usou, vai entregar a idade. Pó de Arroz Royal Briar da Coty então nem pensar. Essa perfumaria é da década de vinte. Minha avó usava.
A música é bela, mas fique na moita. Não diga que adorava ouvir “Hino ao Amor” com Edit Piaf ou na versão brasileira com a Vilma Bentivenha. O Eduardo Budini tem uma coleção preciosa. Foram sucessos nos anos sessenta e ainda da era dos LPs. E muita cautela para não sair cantarolando “Índia”. Vão descobrir que você é do tempo do Cascatinha e Inhana.
No que toca aos homens, que são muito mais vaidosos do que as mulheres há que se tomar alguns cuidados para não revelar a idade. Nunca diga que usou Glostora, nem que tomou Grapette. O primeiro engomava os cabelos; o segundo era refrigerante nos anos sessenta. E quando falar do seu primeiro carro não conte que foi um Simka Chambord, vermelho e branco. Esse carro foi lançado em 1961 e inaugurou o freio a disco.
Agora quanto à sua certidão de nascimento já amarelada pelo tempo, só resta uma saída. Vá ao cartório e tire uma segunda via. Vem novinh
a.

* Alcindo Garcia é Jornalista: e-mail alcindogarcia@uol.com.br