BANALIZARAM A ZONA

Por Alcindo Garcia*

No meu tempo de criança zona era palavrão. Referia-se à zona do meretrício. Ficava em um quarteirão da cidade. Havia muito preconceito contra aquelas mulheres. Fui uma criança do bem, pura como um anjo. Mas confesso que já freqüentava a zona. No bom sentido. Era office-boy de farmácia e ia à zona entregar remédios. Lembro-me daquelas mulheres, algumas bonitas, mas de fisionomia triste, que me recebiam com o maior respeito. Eram recatadas e não se exibiam para este entregador de remédios, ainda impúbere, porém curioso. Nunca tive preconceitos para com elas. Embora prostitutas, nunca me escandalizaram. Hoje entendo porque o Evangelho tem tanta complacência para com elas.
Não se deixavam fotografar nuas, não se despiam em público. Quem poderia julgá-las? Forçadas pelas circunstâncias viviam aquilo que se convencionava chamar de “vida fácil”, que de fácil não tinha nada. Talvez eu já trouxesse nas veias algo de repórter bisbilhoteiro. Notava que a maquiagem delas servia para esconder as mágoas e tristezas de rostos sem esperança. Fiz perguntas indiscretas. Certa vez ao entregar uma encomenda à dona da casa, meus olhos de criança fixaram-se numa imagem de Nossa Senhora ao lado de uma vela acesa em azeite sobre uma estante. Questionei porque ela acendia a vela. Explicou-me que a vela era uma promessa, para que um dia alguém a tirasse daquela vida. Nunca soube o seu nome e jamais me esqueci daquele semblante. Guardei no coração aquela resposta tão sincera, tão confiante e tão honesta. É provável que Deus a tenha atendido.
Hoje a zona ultrapassou os limites das periferias das cidades. Banalizou-se. O que as crianças não viam nas chamadas “casa de tolerância” hoje é permitido nas novelas. As zonas modernas atingiram redes de motéis que exploram livremente o lenocínio e a corrupção de menores. Ao contrário daquelas pobres mulheres a quem eu levava remédios e que não tinham onde caírem mortas, hoje ex-big brothers dublês de artistas, vendem o corpo de forma diferente. Posam nuas para revistas e ganham em dólares. As bancas viraram vitrines de prostituição. Reafirmando a filosofia de que o maior barato é ser careta, sou testemunha de que as quengas de antigamente eram mais recatadas.


*Alcindo Garcia é Jornalista – e-mail: alcindogarcia@uol.com.br