APRENDA A ESPANTAR URUBUS

Por Alcindo Garcia*

Nestas mesmas mal traçadas já disse uma vez que aprendi religião no “Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã”, um livrinho simples, à base de perguntas e respostas. Ainda guardo no meu baú o pequeno manual de como amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo. Hoje quando leio textos de teólogos famosos, com livros traduzidos em várias línguas, percebo que eles não conseguem me passar nada que revigore a minha espiritualidade. Falta-lhes simplicidade.
Lembro-me da infância, da aula de catecismo, onde aprendi um segredo. O velho sacerdote, de sotaina preta, formado em teologia na famosa Gregoriana de Roma, explicava o que era necessário para se fazer uma boa confissão. A turma ouvia com atenção. Tião, a ovelha negra da turma, indagou: “É pecado ter maus pensamentos?” O velho padre respondeu que sim, era pecado. O Tião não se deu por vencido e retrucou: “Mas padre, os pensamentos vêm e ficam me azucrinando, que culpa tenho eu?”.
O velho vigário se esqueceu de sua formação teológica na Gregoriana de Roma e valeu-se de uma teologia cabocla, para facilitar o entendimento de cabeças duras: “Maus pensamentos, Tião, são como urubus que de vez em quando baixam em cima de nós e ficam revoando em torno da nossa cabeça. Cabe a nós, não nos preocuparmos muito com eles, e procurar espantá-los, só isso. O fato de os urubus ficarem voando em torno da sua cabeça não significa que você esteja pecando. Você só começa a pecar por maus pensamentos, se você permitir que o urubu pouse sobre a sua cabeça. Aí você pecou, por ter consentido que o urubu pousasse sobre você e fizesse um ninho na sua cabeça”.
Hoje o Tião, perdão, o Dr. Sebastião Lemos de Alcântara é desembargador, possui uma família maravilhosa, três filhos e dois netos. Quando lhe perguntam o segredo de ter uma família tão linda, seus pensamentos retornam à infância, seus olhos brilham e com o olhar distante ele revela: “Passei a vida toda espantando urubus. Jamais permiti que eles fizessem ninhos na minha cabeça”.


*Alcindo Garcia é Jornalista - e-mail: alcindogarcia@uol.com.br