CUIDADO COM AS PROMESSAS

Por Alcindo Garcia*

Os iniciantes precisam saber que no jornalismo notícia tem peso. O peso equivale ao número de linhas. Se um boateiro conta uma mentira não é notícia. Boateiro não faz outra coisa. Se um político disser uma mentira - é notícia. Se for de pouca importância o peso da notícia equivale apenas a um registro de quatro linhas. Se a mentira for seria, 15 linhas. Não esquecer que tudo o que é inédito tem mais peso.
Horário Eleitoral a parte, a história do Brasil está cheia de mentiras. Muito antes do Luiz Inácio, no século passado, Nilo Peçanha, igualmente já mentia. A História não revela, mas a mídia da época noticiava. Pelo bem do Brasil Nilo Peçanha não trepidava em mentir. Antes de assumir a presidência foi governador do Estado do Rio de Janeiro. Ao tomar posse, encontrou a terra fluminense arrasada e cogitou de fazer um empréstimo externo. Despachou assessores econômicos para a Inglaterra em busca de financiamentos. Mais do que depressa, os ingleses vieram para o Rio de Janeiro para negociar o empréstimo, de olho nos juros.
O incorrigível Nilo Peçanha elaborou um expediente para enganar os banqueiros ingleses. Numa viagem de trem ele lhes teria mostrado a imensa plantação de capim-colonião que margeava a ferrovia e se estendia pelo horizonte, dizendo: “Vejam os senhores. Só a produção desses arrozais dá para garantir o empréstimo”... Pelo bem do Brasil transformou extensos capinzais em luxuriantes plantações de arroz, deixando boquiabertos os banqueiros ingleses que não conheciam a planta. Dizem que a maliciosa anedota perseguiu Nilo Peçanha até o fim da vida.
Cuidado com as promessas no horário eleitoral. Há políticos que mentem até quando dizem a verdade. Certo deputado do nordeste prometeu construir uma ponte sobre o rio das Antas em Santana do Agreste, sertão pernambucano. Veio a seca e o riacho secou por seis meses. Assim mesmo ele conseguiu verbas para a obra que foi solenemente inaugurada com direito a rojões e banda de música. Contestado por um repórter de que ali não havia rio nenhum, o pai da pátria respondeu. “Não interessa. Prometi construir a ponte e promessa é dívida. A ponte está aí. Eu não tenho culpa se o rio secou”.
Está aí uma notícia de peso. Além de manchete de oito colunas, ilustrada com a foto do considerado, a matéria tem peso. Trinta linhas e chamada de capa.


Alcindo Garcia é Jornalista - alcindogarcia@uol.com.br