MEMÓRIAS DESTA ESCOLA

Por Júlio Garcia*

- Nossa mudança para Assis seria em setembro ou outubro de 1962. Fui antes, no início de julho, para ficar na casa de minha avó e tentar vaga, mesmo no meio de ano, em alguma escola. Era época do ginásio e eu estava na segunda série.

A avó levou-me ao Instituto de Educação, onde ela preferia que eu estudasse, pois a escola, na esquina da Barão do Rio Branco com a Luiz Pizza, ficava a dois quarteirões da casa dela, situada na Ângelo Bertoncini, casa geminada com a do professor João Leão e dona Nadir, e de seus filhos, que se tornariam meus amigos de adolescência.

Estão vendo esses degraus da foto? Pois, hoje, passados 50 anos, vejo-me com nitidez luminosa subindo-os, um a um, segurando a mão de minha avó. Da recepção, fomos levados por uma funcionária à sala da diretora. Chamava-se Dona Emery. Era uma mulher corpulenta, séria, aparentemente intimidadora.

A avó falou da mudança de meus pais para Assis. Não queria ver o neto perder o ano. A diretora desfez-se do semblante grave. Delicadamente, desculpou-se e nos convenceu de que nada havia a fazer. As classes já reuniam mais alunos do que o admissível. Só para o ano seguinte.

Avó baixou os olhos para o tapete da sala. Fez-se um breve silêncio, sob o olhar compungido da diretora. Como se estivéssemos sós, a avó passou a mão em meus cabelos desalinhados e balbuciou a frase que ainda hoje reluz nas profundezas de minhas insônias:

- É triste um homem trabalhar para o Estado e não ter, do Estado, um banquinho de escola para o filho estudar.

Foi como se um choque abalasse Dona Emery.

- O pai do menino é funcionário do Estado?

- Do Departamento de Profilaxia da Lepra – assim se chamava o serviço de atenção àquela doença, que, logo depois, o Estado trataria como hanseníase.

Foi a vez de a diretora passar a mão em minha cabeça. Em seguida, segurou afetuosamente as mãos da avó:

- Traga amanhã mesmo os documentos dele. Filho de funcionário público não pode ficar sem vaga em escola do Estado. Nem que eu tenha de dar a minha cadeira a ele – brincou.

Muitos anos depois, no bairro de Pinheiros, creio, em São Paulo, eu saía de uma pizzaria e vi, na outra calçada, uma mulher com um cãozinho preso a uma corrente. Tomava a brisa da noite, em frente ao prédio onde morava. Atravessei a rua, pedi-lhe licença e dei-lhe um beijo na testa. Era ela. Estava aposentada.

O velho Instituto deu lugar a outro colégio, o Carlos Alberto, se não me engano, e à Escola Técnica de Comércio. A cidade também mudou. Hoje, Assis abriga prédios bem mais imponentes que os velhos hotéis Vieira Dias e Santa Rosa. Mas nenhum deles é tão grande quanto um monumento que só eu enxergo e que se chama Maria Emery Pires Soares, a diretora do velho Instituto de Educação, cuja saudosa lembrança ressurge envolta em enorme afeto e emoção cada vez que vejo essa foto.

*Julio Garcia é jornalista

Artigo inspirado nesta publicação no umdoistres: http://www.umdoistres.com.br/fotododia/setembro2012/fotododia2402.jpg