A direção dos ventos predominantes

Por Dagoberto Nogueira*

Foi no inicio de 1975, quando eu trabalhava na Prefeitura Municipal de Assis mais precisamente no Almoxarifado Municipal nos altos da Vila Fiúza, onde hoje é uma escola e funcionava um  posto de saúde. Naquela época, além de exercer meu cargo normal, todos os dias pela manhã eu me dirigia até os fundos do pátio do Almoxarifado para fazer a leitura do tempo numa EMO - Estação Meteorológica Ordinária - mantida pelo Ministério da Agricultura do Governo Federal. Era uma caixa grande de madeira, pintada de branco contendo dois termômetros para medir as temperaturas de máxima e outro de mínima. Tinha também um pluviômetro - aparelho usado para medir o índice de precipitação pluviométrica (chuva) - de alumínio grande e uma proveta para calcular a quantidade de água que tinha caído naquela região. O local era protegido por um grande alambrado com arame farpado. Era um trabalho simples anotar aqueles dados fornecidos pela EMO, mas tinha que ser feito todos os dias, de segunda a segunda e depois enviar mensalmente via correio um relatório para Serviço Nacional de Meteorologia em Brasília. Com o passar dos anos me apelidaram de o "garoto do tempo". Eu levava na esportiva e até gostava, afinal eu achava aquele trabalho todo muito importante e ignorava as brincadeiras. Um belo dia fui chamado no Paço Municipal na sala do DO - Departamento de Obras - pelo engenheiro chefe, um jovem alto, esguio, de cabelos lisos e olhar sério.

 Assim que entrei na sala ele foi falando num tom de quem sabia exatamente o que queria: "Preciso com urgência de um documento do DNMET - Departamento Nacional de Meteorologia - para saber qual é a direção dos ventos predominantes de Assis". Sem mais explicações, o jovem engenheiro agradeceu e voltou-se para sua mesa folheando uma grande pasta cheia de mapas, plantas e fotografias. Voltei para meu setor de trabalho e entrei em pânico. "Direção dos ventos predominantes... o que seria aquilo?" Passei o dia todo pensando em predominantes, direção, ventos até que surgiu uma ideia. Com a ajuda do professor Luiz Alcântara, que na época era chefe de gabinete do prefeito, elaboramos um oficio ao DNMET e em uma semana recebi a resposta. Ela veio pelo correio, numa caixa enorme cheia de livros, mapas, desenhos, gráficos, enfim um monte de coisas que eu não entendia. Apressadamente organizei tudo, coloquei dentro de um envelope e fui todo cheio de pose entregar ao engenheiro. Ele olhou, folheou, analisou todos os documentos e com um olhar de satisfação disse: "Meus parabéns, era exatamente disto que eu estava precisando". O jovem engenheiro era João Antonio Binato e os documentos foram usados na elaboração do projeto de escolha do local onde ficaria o Distrito Industrial de Assis e a "direção dos ventos predominantes" era para  garantir que no futuro, as futuras fabricas não poluíssem o ar da cidade. Hoje tenho muito orgulho de ter participado, mesmo que só um pouquinho, deste momento na história de Assis.

*Dagoberto Nogueira é produtor e editor do www.umdoistres.com.br