BAR DO RAUL

Por Dagoberto Nogueira*

Tudo começou quando o NÃO veio me visitar. NÃO é o apelido do meu amigo assisense que se mudou para São Paulo a muitos anos. Colocamos este apelido nele quando estudávamos no "Instituto". Sempre ao inicial e finalizar uma frase ele colocava - e ainda coloca - o "não" na frente. Ele apareceu em casa por volta das nove da noite morrendo de saudades. NÃO chegou num carrão daqueles com computador de bordo e tudo elétrico. Ele lutou muito na cruel Sampa, mas ficou rico, graça a Deus. Extremamente sensível, nem acabou de enxugar as lagrimas de emoção de rever o grande amigo - fazia mais de cinco anos que a gente não se via - NÃO foi logo dizendo: "vamos pro Bar do Raul comer um bauru de presunto com "molho de cuspida". O molho ao qual se referia, e  que batizamos é aquele vinagrete delicioso que só tem no Bar do Raul. Acontece que uma certa vez no antigo Bar Seleto, na nossa adolescência, vimos um sujeito dar uma cusparada no potinho de molho assim que terminou de comer um salgado. Entregamos o " porcalhão" pro dono do bar - que não me lembro o nome - e este encheu a cara dele de tapa. Aposto que nunca mais cuspiu na vida. Saímos apressados de casa e só de lembrar do bauru do Rauzinho me deu uma " baita" fome. Antes, demos umas voltas pela cidade, pelos lados da Vila Xavier onde NÃO residia e ele quase chorou de novo. Não acreditava que aquele tradicional pedacinho da cidade esta às escuras, meio abandonado sem movimento nenhum. Melancolia. Assim que entramos pela Rui Barbosa NÃO parou em frente à Estação da antiga EFS depois FEPASA e lembrou: "quantas e quantas vezes pegamos carona no trem cargueiro noturno e seguimos pendurados até Candido Mota". Finalmente chegamos na Catedral e a ansiedade aumentou. Oba! Chegou a hora do famoso Bauru do Raul... Mas, surpresa! O Bar do Raul estava fechado. Quase que ao mesmo tempo olhamos para o relógio, conferimos no relógio da Catedral tornamos a olhar para o Bar e não acreditamos. Era pouco mais das dez horas da noite e o Bar do Raul, que durante anos foi o único bar 24 horas de Assis estava mesmo fechado. Novamente NÃO se transformou e seus olhos brilharam. Quase que num grito veio o desabafo de NÃO: "MEU DEUS....TA FECHADO!" Saímos apressados do carrão pra ver se não tinha aviso de luto. Pro Bar do Raul fechar só por este motivo. Nada! Pensei que NÃO ia ter um "treco". Ele perdeu a fala, ficou pálido, mudo e duro como uma estátua olhando pra porta fechada. Pensei em ligar pro 193 - Resgate dos Bombeiros - quando o Pedrinho engraxate passou do outro lado da avenida e gritou: "o Raul mudou ali ó........" e apontou para o outro  lado do quarteirão, ao lado do Titolli, próximo a Farmácia Brasil. NÃO abriu um largo sorriso e saiu correndo no meio da avenida quase sendo atropelado e eu atrás. Quando chegamos no novo Bar do Raul NÃO mudou de ideia. Cumprimentou o Raul num forte abraço e ficou conversando com o "chapeiro" por uns instantes, que naquele dia era o Gustão. Em seguida veio com um saquinho de papel marrom com quatro baurus dentro: "vamos pro Bar do Raul" disse NÃO sério. Voltamos pro antigo prédio fechado onde ficava o Bar  sentamos na sarjeta e saboreamos o lanche por quase uma hora sem dizer uma palavra um ao outro. Ao final NÃO lascou: "ia ficar uma semana em Assis, mas vou embora hoje mesmo. O Raul jamais poderia ter feito isto comigo"; me deixou em casa e foi embora. Pois é meus amigos. Esta crônica foi publicada no umdoistres em 2003 quando nosso site acabara de entrar na Rede e foi muito comentado na época pela família do Raul que gostou muito. O NÂO, quando leu chorou de novo. Na verdade, depois que se mudou, o Raul com o passar dos anos foi gradativamente reduzindo o horário do bar a ponto de não mais abrir de madrugada e depois no período noturno. E hoje quem chora sou eu. Fiquei sabendo da triste noticia, através do amigo Rubens Despachante que passava todos os dias no Bar do Raul, que agora fechou definitivamente. Parece-me que o prédio foi vendido e o Raul e sua esposa Regina, que já estavam aposentados encerraram um capítulo de muitas histórias que durou mais de 40 anos em Assis.

*Dagoberto Nogueira é produtor e editor do umdoistres.com.br - Esta crônica também foi publicada no Jornal Diário de Assis.