Fala vagabundo!

Por Dagoberto Nogueira*

José e um nome fictício pois prefiro preservar sua identidade pois trata-se de pessoa muito conhecida em nossa cidade. Prosseguindo, meu amigo José me procurou a alguns anos pois queria minha opinião para adquirir uma moto. Ele falou em sair por ai, duas rodas, sol, vento no rosto e liberdade. Levei ele ao saudoso amigo Fernando Valverde que acabara de  montar em Assis uma concessionária Yamaha. José se apaixonou por uma Yamaha Virago 250 e fechou negocio na hora. Fiz questão de acompanhar o Fernando no dia de entregar a moto na casa de José, assim que passou pela revisão. Quando viu a moto chorou! Disse que estava realizando o sonho da vida dele e acabamos chorando juntos. Foi muito legal!

Passaram-se um, dois, três, quatro meses e nada de José sair andando com a moto nova. Ficamos sabendo pela sua esposa que ele ligava a máquina todos os dias mas, não tirava da garagem. Fui até sua casa numa noite qualquer para saber o que estava acontecendo e ele disse que não conseguia passear com a moto do jeito que ele queria. Apenas para orientar quem se atreveu a ler nosso artigo, José era funcionário a mais de 15 anos de um grande banco em Assis e tinha um cargo muito importante que exigia muita concentração e atenção. Por isto nos finais de semana ele só queria ficar perto dos filhos, esposa nunca encontrando tempo suficiente para curtir a seu maior investimento pessoal.

Foi então que aconteceu um "milagre". José, depois de mais de dez anos sem gozar férias, devido ao cargo que exercia, recebeu um benefício que concedeu quinze dias de merecido descanso. Não deu outra! No primeiro dia de merecidas férias, em plena segunda-feira José se produziu todo, meias brancas, tênis novinho, bermuda branca e camiseta preta para combinar com a moto. Ele saiu pela primeira vez em sua Yamaha 250, entrou na Avenida Rui Barbosa pela Praça Arlindo Luz e desceu a avenida sorrindo, feliz, sentindo-se o dono do mundo. Era um sonho sendo realizado até chegar em frente a prefeitura, mais precisamente na Praça da Mocidade onde estava concentrado um pequeno grupo de conhecidos, também bancários, que não hesitaram e soltaram aos gritos em tom de brincadeira "e aeeee... fala vagabundo, ta coçando?... nada como ser chefe de estatal e deitar e rolar de moto nova em plena segunda-feira hahahahaha".

Aquilo caiu como uma bomba na cabeça de José. Nem conseguiu chegar no Colégio Santa Maria e entrou antes a direita em frente ao Restaurante do Tatu tomando rumo de sua casa que ficava nas imediações da Avenida 9 de julho. Depois de dez anos sem poder tirar ferias e no primeiro dia de folga ouvir isto? No mesmo dia José me procurou, contou toda história e pediu para eu ajudar a vender sua moto. Tentei convence-lo ao contrário dizendo que "cada cabeça, cada sentença" e que era assim mesmo e o melhor seria ignorar. Nada adiantou! José estava irredutível em sua decisão. Hoje, aposentado, sempre que nos encontramos e toco neste assunto José "amarra a cara" e pede pra mudar de assunto.


*Dagoberto Nogueira é produtor e editor do www.umdoistres.com.br